João Fonseca terá nesta sexta-feira (29), não antes das 10h30 (horário de Brasília), pela terceira rodada de Roland Garros, a dura missão em se tornar apenas o segundo tenista brasileiro a superar o sérvio Novak Djokovic em torneio profissional. Muitos não sabem, mas há 22 anos, o jundiaiense Júlio Silva derrotava o então jovem de 17 anos na última rodada do qualificatório para a chave principal do Challenger de Reggio Emilia, na Itália, e até o momento é o único do país com retrospecto positivo contra o tenista que anos mais tarde viria a se tornar o maior vencedor de Grand Slam na história, com 24 conquistas.
Em entrevista exclusiva ao Guia do Tenista, Júlio Silva, que foi 144º colocado no ranking da ATP em novembro de 2009 e se aposentou do tênis profissional em 2013, contou sobre as dificuldades em disputar o torneio italiano, relembrou o inédito confronto contra Djokovic e também deu conselhos a João Fonseca que buscará avançar às oitavas de final de Roland Garros.
Júlio contou sobre a saga para chegar à Itália. Antes de seguir ao país, ele precisou dormir em estação de trem na Suíça após ser surpreendido com a greve dos funcionários.
“Eu estava num torneio na Alemanha. Aí ia jogar o Challenger de Reggio Emilia, na Itália, em 2004. Vindo da Alemanha, peguei um trem. Eu e o meu treinador tivemos que dormir na estação de trem na Suíça porque havia greve nos trens e a gente não sabia. Os hotéis suíços são muito caros, a gente sem grana, já rodando a Europa por quatro ou cinco semanas. Tentei ver alguns hotéis, só que sem condições de pagar. Então, dormimos na estação, pegamos o trem de manhãzinha e chegamos em Reggio Emliia às cinco da tarde. Batemos uma bola e nos preparamos para jogar o quali no sábado”, contou Júlio.
Júlio admitiu que não conhecia Djokovic, mas foi alertado por colegas italianos sobre as qualidades do adversário, que na época ainda não tinha atingido a maioridade e estava na transição juvenil-profissional.
“Saiu o sorteio da chave do quali, fui ver as possibilidades de jogar contra quem na última rodada. Ganhei o meu primeiro e segundo jogo, ele (Djokovic) também ganhou. Aí fui perguntar para o pessoal. “O que é esse tal de moleque Djokovic’. Os italianos, que eu conhecia na época, falaram que ele era sensação na Europa e que ganhou Challenger na semana anterior com 17 anos”, declarou.
“Já comecei a ficar p….Tanto cara pra pegar e eu vou pegar um cara que ganhou um Challenger. É duro você ganhar um Challenger na Europa. Falei: ‘E agora. Se eu perder esse jogo aqui, como vou pagar o hotel?’ Fui para o jogo contra o cara. Eu sempre gostei de testar os jogadores no aquecimento. Toda bola que eu fazia voltava sempre melhor. Aí já falei ‘f….Não tem como ganhar do moleque’. Muito sólido na esquerda, direita, quick muito alto no saque, primeiro saque bom..”, completou.
Como Júlio Silva derrotou Novak Djokovic
O ex-tenista, que hoje dá aulas de tênis a garotos, contou qual foi a estratégia para superar o sérvio e destacou a importância da partida. Júlio ficou impressionado com o estilo de jogo do rival, mas admitiu que não imaginava que ele fosse se tornar anos mais tarde o maior vencedor de Grand Slam da história.
“Fui para o play com ele. Lembro que ele estava sem treinador e estava com o pai. Eu falei” ‘vou ter que dar o meu máximo neste jogo porque o moleque não tem buraco, vou procurar ficar o máximo que puder, manter bola no fundo para não deixá-lo me atacar tão fácil assim. Comecei a trazer muita bola para o fundo, coloquei muita bola próxima ao pé dele. Eu particularmente gostava muito quando ele sacava o primeiro saque porque era mais fácil de devolver do que o segundo, que quicava muito alto e ele só passava para o outro lado. Aí ele vinha me pegando de direita ou esquerda pelos dois lados. Quando ele sacava com o primeiro, eu conseguia bloquear bem, voltar bem no ponto e armar as jogadas”, afirmou.
“Esse jogo foi muito importante porque eu já sem grana, precisava passar o quali para ganhar cinco noites de hotel. Antigamente era assim na Itália. As coisas se encaixaram para mim no jogo, fui ficando mais sólido que ele, que foi perdendo a paciência porque voltavam todas as bolas. Aí sempre tive uma boa mãozinha, de tirar umas curtinhas, consegui jogá-lo um pouco para trás. O jogo virou para o meu lado, fiquei extremamente sólido contra o moleque, que tinha um poder de fogo absurdo e muito rápido de perna. Um nível impressionante para quem tinha apenas 17 anos. Consegui jogar bem e me acalmar com todo o cenário desfavorável para mim por conta de pagar hotel, na pressão que tive no momento”.
“Acabei ganhando dele de 6/4 e 6/2. Foi uma vitória muito importante. Lógico que sabia que ele tinha um nível absurdo tanto que depois de um ano ele era o 80º do mundo, mas não tinha como saber que ele se tornaria o maior da história em número de Grand Slam. Graças a esse jogo consegui pagar hotel, ficar cinco noites a mais, acabei ganhando a primeira rodada do (italiano) Vincenzo Santopadre, com duplo 6/0, mas depois perdi do (espanhol) Nicolas Almagro. Era um torneio duríssimo que ficou com boas recordações na minha cabeça”, completou.
Por fim, Júlio Silva deu conselhos para João Fonseca buscar a vitória contra Nole e disse acreditar no potencial do jovem de 19 anos, elencando as suas principais qualidades. Ele alertou para a rápida leitura de jogo do rival.
“Primeiro conselho é não respeitar Djokovic. Sei que é um dos maiores da história do tênis, o quanto isso pesa para um tenista adversário. Segundo. O João tem um poder de fogo muito bom, pegando muito bem na bola, tanto de direita e esquerda, saque e tudo mais. Só que a leitura do Djoko é muito na frente. Tem bola que sobra no T, você arma para bater na cruzada e na paralela e antes de bater o cara já está lá. Então, de repente, como o João tem essa bola pesada e firme vai sobrar muita bola para o Djokovic chegar e contra-atacar, é bom o João esperar o cara se movimentar, colocar a bola no lado, pôr o cara para trás, dar curtinha e jogar como vem jogando, pegando na bola, procurar jogar bastante com o primeiro saque, fazer variações entre porrada, quick e drops que funcionam bem em Roland Garros porque o Djokovic é um cara que te lê muito rápido. Você começa sacando bem dois ou três games e daqui a pouco ele já entende o seu jogo, como você saca, como bate na bola. Djokovic é muito craque em ter essa percepção”, analisou.
Crédito foto: João Pires

